segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Dia 15 - 22 de Agosto e compromissos

Há dois anos atrás


Assim que me comprometo com uma coisa, algo muda, e lá se vai o compromisso.
Era suposto ter escrito 20 textos até à data do aniversário ou o mais tardar da morte do Tomé e no entanto cheguei só até ao dia 14 e depois disso um silêncio de 22 dias exactos. E reparo agora que estamos a 22 de Agosto, um mês exacto depois do aniversário. Datas, números enfim. Podem significar tudo ou nada. Fico curiosa sobre em que dia e sobre quê será o texto 20.

Não me sinto culpada por aí além. Não sei porque foi assim, mas não me faria sentido escrever sem ser algo que viesse de dentro. E a verdade é que nestes dias não veio. Curiosamente tenho tido, por causa das férias imenso tempo para pensar e sentir o Tomé e a minha relação em transformação com ele. Tem havido mais angústia do que paz, mas está bem, este é um processo em que já aceitei que algumas coisas são escolha minha e outras não... é aceitar ou reprimir, mas elas brotam de alguma lado por si próprias.

Tenho saudade de fazer mais memórias como o Tomé, como aquela que foi feita há dois anos no Vale do Silêncio. Essa é uma das coisas essenciais para poder respirar, fazer memórias com o Tomé, na sua ausência/presença. Nestes dias senti necessidade de escutar mais do que de falar, de sentir mais do que exprimir. Foi bom assim, mesmo às vezes sendo dificil. Agora começa a formigar este desejo de voltar a escrever e voltar a fazer. Mas ainda muito mansinho. 

Tenho vontade de uma data para celebrar o Tomé, já sei que não pode ser nem nos anos, nem na data da morte porque são no verão. Terá que ser então outra altura. Vai surgir.
Hoje é o aniversário do filho de outro filho que morreu, não vou referir a mãe porque não lhe pedi licença, mas o filho é o Sérgio. Este filhos fazem-nos ir onde não iriamos se tivessem viajado para mais perto. 

Há dois anos tive um sonho, era mais complexo que isto mas no fim acabava comigo a gritar com o diabo para me devolver o Tomé. Um buraco grande no chão e eu a gritar com uma voz assustadora para ele, sem medo nenhum. Para mim é um sonho simbólico, e deixou-me reconfortada, fez-me pensar que pelo Tomé ou por qualquer outro filho enfrentaria qualquer coisa, que não teria medo de nada. Lembrei-me disto agora. 

Claro que às vezes é mais fácil enfrentar os demónios externos que os internos... e esses são os que quero enfrentar agora. 

sábado, 30 de julho de 2016

Dia 14 - Ser ou não ser feliz


O puzzle que o Tomé e eu fizemos juntos na casa do Areeiro

Eu e o Tomé fizemos um puzzle imenso há uns anos, durante semanas não pudemos comer na mesa da sala, mas valeu totalmente a pena. No fim faltavam peças, decidimos emoldurar mesmo assim, adorei fazer o puzzle com ele, adoro este puzzle com peças em falta, mais tarde encontrei as peças, mas não quis colocá-las no lugar, achava tão mais bonita a imagem incompleta. Está agora na parede do quarto que foi do Tomé. Estão quase a passar dois anos, parece um segundo e uma eternidade. As saudades não diminuem, aumentam. Algumas peças encaixam no puzzle, outras não faço ideia onde ou se vão encaixar alguma vez. 

Ontem estive com a Doriana, a mãe do Brian que morreu exatamente hà um mês - hoje foi o lançamento de balões em sua honra - foram precisos dois anos para me encontrar cara a cara com alguém que tem uma forma de viver o luto semelhante à minha. Que escolhe lembrar e continuar em relação. Que também tem sentido que falta abertura para isto. Foi muito bom. Até nos esquecemos de tirar fotografia, é bom sinal. Se a partir de três já não é loucura, já só nos falta um/a... 


Sei que posso continuar a sentir felicidade apesar da morte do Tomé, e paz, e alegria. A questão não é se é possível, é se vou ter coragem de o fazer apesar do medo.
Medo de quê? Medo de que uma mãe que consegue ser feliz e sentir-se viva depois da morte de um filho não seja boa mãe e consequentemente é óbvio que não pode ser boa pessoa. Tenho medo de não ser boa pessoa se for feliz. Conhecem a sensação? 

Podemos sentir isso por causa da morte de um filho, por causa da infelicidade dos nossos pais, da nossa família inteira ou parcial... dos nossos vizinhos. Em ultima análise pode parecer uma traição aos nossos amigos e até à humanidade ser feliz em tempos de tanta dor. Há anos um professor de constelações de que gosto imenso o Lorenz Wiest dizia-nos: "Achas que é difícil ser infeliz? Pensa melhor, ser infeliz é muito fácil, qualquer pessoa consegue ser infeliz, difícil é ser feliz, é isso que dá trabalho." Fez-me sentido.

Já li escrito por especialistas em luto que quanto maior o amor maior a dor... $%&#$%& A sério? Com essa lógica as pessoas que não ficam destroçadas são insensíveis e no fundo não gostavam das pessoas que morreram. O luto não é um concurso... 

Essa forma de pensar deixa quem sobrevive com vergonha de se sentir bem, porque isso parece ser uma prova de desamor. Por outro lado é-nos pedido para ficar bem rápidamente... embora claro se continue a afirmar que ficar bem é impossível. É fácil concluir que o que é socialmente aceite é ser estóico, continuar a funcionar e sofrer em silêncio. Nada mais poético do que uma pessoa que corajosamente apesar da dor leva a sua vida 'para a frente'. Sobreviver e sofrer em silêncio é permitido. Sofrer abertamente e ao mesmo tempo continuar vivo, nem tanto. 

Medo e coragem: medo de não me permitir ser feliz, medo de não ser boa mãe nem boa pessoa, vergonha de querer viver, e a coragem que nasce desse medo, de me questionar, de procurar, de perguntar e sobretudo de respirar e escutar os meus sentimentos, de partilhar a história de expor aquilo que envergonha para lhe tirar o poder.

Há algo de indomável nos sentimentos fortes, que assusta quem tem medo do seu lado bicho. Há uma loucura boa em seguir esses sentimentos, desconfio que eles podem levar-nos mais perto de uma verdade orgânica que cura. 

Apesar de o Tomé ter morrido eu continuo viva e o campo continua a cheirar bem e os risos das criança ali ao lado continuam a ser alegres. E no fundo o desafio desta blogue é esse mesmo, aprender a ser feliz com o Tomé, um processo intrincado :) mas vamos... 

Obrigada à Doriana por ser uma companheira de jornada.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Dia 13 - Coragem e outras coisas.


Sinto que estou a lutar, mesmo que não queira, luto porque tenho medo, não só por mim. uma amiga escreveu-me no outro dia: "a realidade assusta-me" e reconheço-me nisto. Repito para mim própria que mesmo com tudo o que vejo no mundo não vou desistir, repito para me convencer, porque me quero agarrar com unhas e dentes a qualquer réstia de esperança num futuro melhor que o presente. Com menos medos, menos ódios, mais alegria, abertura, sinceridade. 


Ás vezes apetece-me borrifar em tudo, pensar que não vale a pena, que o mundo nunca vai mudar, que a maioria são ovelhas e que preferem mil vezes ser escravas do que correr o risco de errar. Depois olho para as minhas sobrinhas, não porque são minhas, mas porque são felizes enquanto crianças, olho para elas e respiro muito fundo e sei que quero fazer o meu melhor e talvez um bocadinho mais para que elas tenham um futuro em que não tenham que ter medo da realidade. Assim como o Tomé dizia, o que o mundo precisa é de mais honestidade e bondade.



Isto pode parecer uma atitude corajosa e as pessoas apreciam a coragem. É das coisas que mais tenho lido nos comentários aos textos que tenho escrito, e sabe bem. Mas não é bem isso. A coragem vem à medida do medo, a coragem é um músculo que se treina (palavras da Brenée Brown), a coragem é maior em quem passou por mais medo, por isso talvez devêssemos começar a valoriza-la menos e a criar condições para que não seja tão necessária. 

Prefiro imaginar um mundo em que não seja necessária tanta coragem porque as pessoas se sentem apoiadas e podem assumir a sua vulnerabilidade. Muitas vezes tenho raiva da minha "coragem" porque ela significa que muitas e muitas vezes não era capaz mas tive que fazer. Uma situação que hoje em dia se calhar a maioria das pessoas conhecem, mas as mães de certeza e as mães solteiras se calhar mais do que qualquer outra pessoa. 

Sei o que me custou ser "corajosa" para além das minhas forças como um modo de vida e não acho que o orgulho seja a resposta certa. Sinto algum alívio, mas... a verdade é que a minha coragem falhou muitas vezes. Era para além das minhas forças. E... não devia ter tido que ter a tal coragem tantas vezes porque como mãe devia ter sentido segurança e apoio. Não desejo coragem para as outras mães e pais. desejo conforto, reconhecimento, justiça social. Desejo que só tenham que ser corajosos em circunstâncias muito raras, só para o músculo não se atrofiar e ainda assim com as costas quentes. 



Temos assistido a vários casos ultimamente de mães que se tentem suicidar com os filhos, é claro que os "treinadores de bancada" saltam logo para o julgamento e atiram a primeira e até a segunda e a terceira pedra, sem se perguntarem se já pecaram. Eu pergunto-me o quanto estas mães já tinham usado a sua coragem até se esgotar. Até soltarem o pequenino fio de coragem que as prendia à sanidade. 

Quando virem alguém que acham corajoso, podem evidentemente admirar e reconhecer essa coragem, desde que sabendo que também vocês a poderiam ter. Mas sobretudo estendam a mão, não aos estranhos corajosos, mas aos que estão ao vosso lado. Pensem neles assim como uma pessoa a carregar uma carga muito pesada e que não precisa que a fotografem para o face nem que lhe batam palmas, mas sim que lhe tirem alguma carga de cima. E mesmo nisso é preciso atenção em ver o que tiramos, tirar algo que não perturbe o equilíbrio do todo, não a primeira coisa que vem à mão, que pode ser aquilo onde o resto se sustenta.



Há uma expressão bonita "dare to care" Atrever-se a importar-se. Numa cultura que promove a indiferença e as ajudas bonitas e superficiais, importar-se com os outros é um atrevimento de que precisamos cada vez mais. Por cada pessoa que cultiva a indiferença, há outra que se importa e tem que se importar por duas, ou por três ou por quatro. Como o Tomé e como tantas outras pessoas que conheço e de quem gosto muito. 



De uma cultura de indiferença a uma cultura de cuidado pode ser só um passo, uma mudança da atitude, de perspectiva. A realidade de hoje é assustadora, e os ajudantes estão a fazer o seu trabalho mas não chega, todos fazem falta, todos podem fazer um bocadinho. E agarrar-se ao fio de esperança e de coragem, juntarem-se a outros e apoiarem-se reciprocamente neste caminho. 



"Se queres ir rápido vai sozinho, se queres ir longe vai bem acompanhado"

Provérbio Africano

Hoje vi este filme, animador. Há muita gente a trabalhar para um amanhã melhor.


quarta-feira, 27 de julho de 2016

Dia 12 - Parabéns ao Tomé (atrasados)


Nas semana passada foram os anos do Tomé, e um grande silêncio aqui no blogue. 
O silêncio não aconteceu porque me senti mais triste, pelo contrário, aconteceu porque estive mais envolvida na vida e mais tranquila, e porquê? Penso no Tomé todos os dias do ano, maioritariamente sozinha, assim como outras pessoas que o amam também pensam nele sozinhas, e nos anos dele juntamos-nos e pensamos nele juntas.... é muito melhor :) Por mim podiam ser os anos do Tomé todos os dias. 


Embora não seja católica, o meu imaginário é, tem-me vindo á cabeça uma frase de Cristo: "onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome eu estarei no meio deles". Numa interpretação livre, dei por mim a pensar que se calhar isto é verdade para todos os nossos mortos. Que se cada um de nós que os ama transporta em si um pouco deles, quando nos juntamos a presença é mais intensa. 



Por muito que não queria ter certezas num assunto destes,  a verdadeira razão porque consigo lidar com a morte do Tomé é porque nunca vi a sua morte como o fim da nossa relação, nem dos meus planos em comum com ele para o futuro. Nunca achei e ainda não acho que nunca mais ia poder comunicar com ele. 



O conceito de alma sempre fez parte da minha vida, de formas mais ou menos vagas. Nunca  precisei de ter uma certeza a este respeito até agora. Tenho noção desde pequenina que há coisas que o nosso cérebro não alcança, como infinito e eterno. Em criança tentei imensas vezes visualizar estas duas ideias sem nenhum sucesso. Mas aquilo que não consegui mentalmente, foi muito mais fácil a nível sensorial, em alguns momentos consigo sentir eterno e infinito, desde que não o tente fazer com o meu cérebro. Acho que é assim também com a alma. Algo que não é palpável, mas é "sentível" quando paramos de pensar. Quando vemos com os olhos da alma também.


Ainda assim é muito difícil. No fundo o que me importa não é se o Tomé morreu ou não, nem ele não estar aqui. Ele podia não estar aqui por milhentas razões, o que me importa é não saber se ele está bem. Não ter a certeza toda. Não poder mandar um sms e ter uma resposta... Nos momentos em que custa mais, as lágrimas impedem que o coração seque.

Algumas tradições falam em vários saberes: o que sabemos que sabemos, o que sabemos que não sabemos, o que não sabemos que não sabemos e o que não sabemos que sabemos.  Gosto muito deste conceito das coisas que não sabemos que sabemos. E com isso vem esta realidade que me parece ser partilhada por todos, das coisas que não somos capazes de fazer, mas fazemos na mesma. Como dar à luz, ser mãe, o luto e morrer. Um conjunto que parece dispar mas se calhar não é.
Talvez seja esse o mistério que nos ajude a fazer coisas que teóricamente não conseguimos. Como atravessar crises monumentais e superar-se perante as adversidades.

E estas várias facetas que nos ensinaram que se excluem, mas que obviamente coexistem em nós  humanos... estar bem e mal. Ter coragem e não ter, acreditar na alma e sofrer com a morte. Estar completamente tranquila e totalmente ansiosa. As contradições normais da natureza  humana. E quem sabe da divina. Esta coisa de sermos muitos mundos dentro de um só. Um arco-iris de realidades feito pessoa.

E no fim disto como no principio, parabéns ao Tomé que está simultâneamente ausente e  presente. Que é amado em várias dimensões e que quando atravessa a minha realidade do momento o faz como uma brisa fresca e brincalhona e ainda assim séria e profunda. Não vou tentar agarrar-te, porque suspeito que me escaparias pelos dedos, vou apenas respirar-te, pressentir-te, cintilar contigo sempre que puder. 

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Dia 11 - Uma amiga que não conheço


De momento sinto-me demasiado vulnerável para escrever sobre o que quero escrever: mães solteiras, abortos e o que é ser e ter um filho homem quando se tem medo de homens...

Na falta de coragem aqui fica um poema que encontrei ontem e que é de uma amiga desconhecida :)
Uma amiga que só conheço ao longe, em videos e por escrito mas que ainda assim tem sido uma grande ajuda, a Brenée Brown. Ela também acredita como eu no poder de contar a história.

Aqui fica:

Manifesto dos Corajosos e Destroçados

Não existe maior ameaça para os críticos e cínicos e promotores do medo
Do que aqueles que estão dispostos a cair
Porque aprendem a levantar-se

Com joelhos esfolados e corações magoados:
Optamos por assumir as nossas histórias de luta,
Em vez de nos escondermos, acotovelarmos, fingirmos.

Quando negamos as nossas histórias eles definem-nos,
Quando fugimos da luta, nunca somos livres,
Pelo que nos voltamos para a verdade e olhamo-la nos olhos.

Não haveremos de ser personagens das nossas histórias,
Não seremos vilões, nem vítimas, nem sequer heróis,
Somos os autores das nossas vidas,
Escrevemos os nossos finais audaciosos.

Construímos amor a partir de desgosto,
Compaixão a partir de vergonha,
Bondade e partir de desilusão,
Coragem a partir do fracasso.

Expormos-nos é o nosso poder,
A história é o nosso caminho para casa,
A verdade é a nossa canção,
Somos os corajosos e destroçados,
Estamos a recuperar a força.



sexta-feira, 15 de julho de 2016

Dia 10 - Cansaço

Talvez seja o verão, talvez seja a aproximação do aniversário do Tomé, que por sua vez é próximo da sua morte, a verdade é que de cada vez que me sento para escrever, os olhos estão pesados, há um enorme cansaço. E tenho aceite isso. Eu tinha um plano: escrever 20 textos em 30 dias e esse plano não parece ir concretizar-se. E não faz mal. Os planos vão ter que se ajustar à realidade do meu cansaço. 

Hoje tive um encontro com dois pais que me trouxeram inquietações sobre a sua escola, o seu bairro, o seu filho. 

Falámos sobre as resistências à mudança, como os que tomam a iniciativa se colocam no meio da arena e correm o risco de serem devorados pelos leões, de como os mais prejudicados pelo sistema, são às vezes os seus maiores defensores e no essencial falámos sobre crianças e jovens, que são peões em jogos de poder dos adultos. Em escolas que têm os alunos "bons" e "maus" separados. Da diferença que faz de quem se é filho, e de como isso já é tão comum que quase não se nota.

Olhei para estes dois pais, que podem tirar o filho daquela escola se quiserem, mas que ainda assim se importam com os que lá ficam. Que se importam com os filhos que não são deles. E aqueceu-me o coração. 

Hoje disse a estes pais que só daqui a três semanas vou à escola deles, que vou de férias antes. Resisti à tentação de alterar tudo para fazer de bombeira amadora. E fiquei contente. Também a ajuda tem que ser sustentável e sustentada. É uma aprendizagem nova para mim e ainda muito titubeante de não me sentir compelida a dizer que sim a todos os pedidos de ajuda, menos aos meus. 

Sou eu quem está vulnerável agora. Não esperava que esta fase fosse tão forte mas está a ser. Não consigo fazer isto mas estou a fazer. Não há escapatória para as emoções. Têm-me dito que sou corajosa. Eu estou de acordo com a Brenee Brown em que a coragem é um músculo. que se treina Às vezes gostava de ter menos coragem. Ter coragem não é muito mais do que um sinal de uma vida difícil. 

Ás vezes é muito cansativo. Muitas vezes dá vontade de desistir. Mas não dá para desistir. Desistir tem consequências e essas consequências são nossa responsabilidade perante aqueles que não podem defender-se, perante os mais vulneráveis. Assim como cada pequena mudança é uma nossa alegria.

Há uns dias falava com uma mãe muito jovem sobre o significado de ser mãe sozinha. Olha para uma mãe sozinha e vais ver uma mulher corajosa, muitas gostavam de não ter o músculo da coragem tão bem treinado. Mas isto é um outra história, que fica para amanhã... ou depois... dependendo do cansaço. 

Há muita coisa realmente terrível a acontecer e que parece que as soluções chegam em câmara lenta, que essa lentidão significa para as crianças que estão a ser engolidas pelo sistema. Por outro lado há tanta coisa boa a acontecer, tantas pequeninas chamas que começar a iluminar. 

Hoje deixo aqui os nomes de alguns deles, se clicarem nos links vão poder saber mais sobre cada um. Deixo também o link para o projeto do meu coração, o Sê Aprendiz. 

Dêm uma olhadelas e guardem os links para os momentos de desalento, ajuda saber que não estamos sózinhos.

Vidas Ubuntu
"A minha história pode mudar a forma como vemos o mundo"

Sociedade do Bem
"A missão do projeto consiste em promover a empatia, o altruísmo e a positividade nas crianças e jovens através do exemplo."

Projeto Oxigénio
"Inspirar uma nova educação e organização"

Sê Aprendiz

"Honestidade e bondade é o que esta sociedade mais precisa"

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Dia 9 - Miss you


Tenho tido vontade de escrever para o Tomé, mas não é fácil. 
Nem sei porque é tão dificil mas é. Talvez  tenha medo de estar a escrever para nada, para ninguém. Não o tenho sentido perto. Já há um bom tempo. Não sei se ele por aqui anda e eu não sinto, se simplesmente se afastou ou se nem sequer aqui estava quando eu o sentia tão claramente.

No ano da morte do Tomé (fica tão literário assim) no inicio do ano, várias coisas aconteceram de estranho, aquele tipo de coisas que têm importância mas não sabes porquê. 
Uma foi que pensei que nesse ano queria dizer muitas vezes "não sei" e "tens razão". Coisas que achava que as pessoas, incluindo eu diziam pouco e que podia fazer diferença. Outra foi que a partir de certa altura deixei de conseguir dizer "vou fazer isto", mesmo nas coisas mais simples e só conseguia dizer tenho intenção de isto ou aquilo. Alguma coisa em mim me dizia fortemente que não estava a controlar muita coisa. Que bem podia fazer planos mas aconteceria, o que aconteceria, independentemente deles. A terceira coisa e a que mais me impressiona agora quando olho para trás foi um sonho em Junho de 2014, o ano da morte do Tomé. 

"Vou de carro com a minha mãe a descer uma rua perto de casa, de repente  em camera lenta vejo o banco de tras do carro a voar por cima de mim, percebo que foi uma batida de trás, muito rápido percebo  que é um camião enorme e que vai passar por cima do carro, sinto o carro a esborrachar-se por cima de mim e penso que vou morrer, começo a ficar mais apertada, já deitada de lado, sei que não posso fazer nada e resta-me esperar para ver se sobrevivo, tenho ideia que por esta altura já devia ter morrido mas continuo viva, tenho alguma esperança de sobreviver, toco na cabeça e sinto sangue mas não me doi nada. Fico á espera que o camião acabe de passar e nesse momento acordo, relativamente calma, o coração nem estava a bater mais nem nada, e fico mesmo espantada por não ser real. Acordei sem ter a certeza se sobrevivi, nem ideia nenhuma de se estava muito magoada. Foi super forte e fiquei a pensar nisso até hoje.  Sinto que posso perder uma coisa importante para mim e isso está a angustiar-me,"
O sonho impressionou-me tanto que o partilhei num grupo de mulheres - por isso tenho esta descrição tão clara - e pedi interpretações, esta foi uma delas, a da Inês Duarte:

Algo está a passar por ti que te está a deixar quase morta. Esse acontecimento é bastante forte e só estás à espera que passe e que no final sobrevivas sem muitas mazelas. A adrenalina do momento não te deixa sentir as feridas que tens (a cabeça com sangue mas que não doí), mas elas estão lá. O facto de estares com a tua mãe significa que a tua parte materna ou melhor aquilo que a tua mãe espelha de ti está também a ser afectada por este acontecimento. Assim aquilo que gostava de salientar apesar de estares consciente do que se está a passar contigo é teres atenção à ferida que agora não doí, mas que depois vai doer e pode até originar a morte. Como aquelas pessoas que estão gravemente feridas mas não sentem nada e ainda conseguem ter força e momentos muito lúcidos para depois caírem para o lado. 

Eu sonho imenso, quase todas as noites, não havia razão para este sonho me ter impressionado tanto, foi um sonho quase lúcido, senti como um aviso, não sobre uma coisa que estava a acontecer, sobre uma coisa que ia acontecer. O que me tem dado que pensar. Não que procure uma explicação racional, há coisas que não ser podem racionalizar sem as destruir. Algo que não posso impedir que aconteça, que é demasiado grande para mim, muito maior, uma desporporção de forças. Algo que acontece e supostamente me devia matar, mas para já não mata, uma calma surreal perante a inevitabilidade de tudo, a necessidade de esperar para ver como estou, quais os danos. Uma coisa que afeta o meu lado de mãe - a minha mãe comigo no carro. 

Tenho muitas, imensas destas coisas na minha vida, estes pequenos bilhetes de algures, assim como o texto do Tomé. E por outro lado é tudo tão subtil que é quase intangível.

Quando o Tomé morreu, "por acaso" uma das minhas professoras alemâs estava em Lisboa, fiz uma consulta com ela. Nessa altura tinha a certeza de que eu e o Tomé iamos continuar a comunicar - e acredito mesmo que comunicámos pelo menos duas vezes. Com ela tentei compreender de que forma, não fomos capazes de chegar a nenhuma conclusão. Eu nunca senti que tinha perdido o Tomé, porque sempre acreditei que estariamos ligados de outra forma. Hoje questiono-me. Porque já não o sinto? Ando distraída? ele afastou-se? voltou a nascer? Boas perguntas, as respostas parecem chegar sempre cifradas. 

Erica quase a receber o Tomé
Outro Tomé :)
Há talvez um mês, uma colega que é parteira, partilhou num grupo que tinha estado num parto maravilhoso, que estava deliciada, que os pais eram maravilhosos, o bebé também, tinha corrido tudo tão bem. Fiquei ligada. No dia seguinte disse uma frase trivial que poderia perfeitamente não ter dito "O Tomé já está no colinho da mãe." Achei bonito a coincidência, pensei que se o Tomé renascer, espero que tenha assim um parto lindo e uma família linda que o ame muito, pensei nisso, foi reconfortante e depois esqueci. 

Algum tempo depois a Erica voltou a falar num parto, foi o parto seguinte de que falou, contou que tinha sido também um parto incrivel, o nome do bebé? Isac. 
Isac é o nome do meu outro filho. Dois partos, duas partilhas, das duas vezes o nome do bebé é mencionado e os nomes são os dos meus dois filhos. 

Brinquei com a minha filha Bianca... "só faltas tu" Francamente se a Erica assistisse a um parto de uma Bianca seria quase demasiado :)

Ainda assim fiquei atenta, pensei que as mensagens não são assim tão óbvias. Daí a umas semanas houve um encontro, um encontro onde as pessoas falam abertamente sobre a morte e o luto, chama-se Death Café e ácontece um pouco por todo o mundo. Neste encontro chegou uma mãe com uma filha muito jovem. A filha não era para vir, tinha ido para acompanhar a mãe que se sentia frágil. O nome da filha? por esta altura é fácil adivinhar: Bianca.

Claro que é possivel escolher acreditar em coincidências, mas seja pelo que for os meus filhos têm nomes incomuns... Isac, Bianca, Tomé. Quais são as possibilidades? Eu não sei, mas dá-me que pensar.

Tomé, quer andes aí ou já tenhas nascido, ou mesmo que tenhas desaparecido para sempre. Fazes-me falta. Muita falta. Não vou correr para a morte pare te reencontrar, embora tenha dias em que me apetece, antes de ir ainda tenho que fazer aqui, ainda tenho de quem cuidar aqui, ainda tenho a tua herança para honrar aqui. Espero que seja verdade que tudo é mais bonito desse lado. 

Diria "só quero que sejas feliz" se não fosse, da última vez que te disse isso, teres olhado para mim com um ar gozão e dito: Só? 
Tens razão filho isso não é nada pouco. É mesmo uma coisa que não se pode pedir a ninguém. Só quero que sejas quem és, onde quer que estejas.