terça-feira, 13 de setembro de 2016

Dia 16 - 22 dias depois e a culpa

Não tem conta as vezes que me sentei para escrever e depois fugi. Não têm conta os bocados de textos meio escritos, e os fragmentos de ideias, que talvez, ou talvez não cheguem a ver a luz do dia. Dois anos passados a coragem dada pelo Tomé começa a diluir-se e tenho que começar a andar pelos meus próprios pés, que são muito mais medrosos naturalmente do que têm sido ultimamente.

Ontem acabam as férias, por um lado uma pena, por outro ufa... acho que me sinto muito mais em casa no trabalho do que na vida. No trabalho sei (na generalidade dos casos...) o que estou a fazer e sinto que sou competente, ao contrário das férias e da vida do dia a dia.

Há muitos anos tive uma cadela chamada Pluffa, uma cocker muito bonita e um bocado lamechas, comprámo-la por ideia do Rui, quando eu estava grávida do Isac, o meu filho mais velho. Um ano e meio depois nasceu a minha filha. Fui uma péssima dona, do mais indisponivel que se possa imaginar, e ela foi uma cadela bastante infeliz.  Era impossível fazer alguma coisa com dois bébes e uma trela. 

Com quatro anos a Pluffa ficou doente e começou a vomitar, não era a primeira vez, por isso ignorei, talvez não alheio a andar exausta. No segundo dia levei-a ao médico, já era tarde. Ele disse-me que a culpa era minha, que devia ter ido mais cedo. Eu acreditei. Morreu no meu colo, enquanto as crianças dormiam. Ainda choro quando me lembro disto. Ela olhava para mim e achava que eu podia ajudar, mas não podia, tudo o que pude fazer foi ficar com ela ao colo e fazer-lhe festas e a sentir que a culpa era toda minha, e chorar sem parar quando ela morreu. 

Como não se sabia ao certo do que tinha morrido fez-se uma autópsia, descobrimos que a Pluffa tinha nascido só com um rim, que morrera por causa disso e não por causa da minha incúria. Que para o problema que tinha, tinha vivido bastante tempo. A Pluffa ainda estava morta, mas eu já não era um monstro. Passaram 22 anos. 

É tão dificil saber o que é certo ou errado, o que pode ou não ter consequências graves, tantas vezes fiz coisas arriscadas e correu bem e tantas outras não fiz nada de especial e correu mal. Quando algo de mal acontece com alguém dependente de nós, é difícil continuar a  acreditar na nossa capacidade de tomar decisões acertadas. 

Um dia, o Tomé era pequenino, enquanto lhe dava banho a água desregulou-se e ele queimou-se. Zangou-se comigo: "Queimaste-me!" 
Expliquei-lhe que não o tinha queimado, que tinha sido um acidente, perguntei-lhe se fossemos na rua e ele caísse se a culpa era minha. Ele estava zangado e respondeu-me "Era sim, porque estavas a falar com as tuas amigas... " Agora dá-me vontade de rir, mas porque era um discurso que eu sabia que não vinha dele, mas sim da minha mãe... zanguei-me e dei-lhe uma das poucas palmadas que lhe dei na vida. Estava farta demais de ser o bode expiatório de serviço. Não queria que o meu filho me visse da mesma forma. 

Há umas semanas tive um problema em casa com uma pessoa a quem aluguei um quarto durante uns meses. Um homem jovem com dificuldade na gestão das emoções, também ele, achava sempre que a culpa era minha, mesmo quando era ele que comia a minha comida ou dormia na minha cama quando eu não estava. Assumiu que eu era uma megera materialista e gélida. A culpa nunca podia ser dele. Chegou um momento em que não me sentia segura na minha própria casa. Por isso disse-lhe que saísse, quando ele mais uma
A prova do crime
vez me tratou com desprezo, atirei-lhe com  o meu luto à cara. Perdi o controle e gritei, atirei com portas. Expliquei-lhe que não tinha o direito de me tratar mal, porque o meu filho tinha morrido. Que eu merecia respeito por causa do meu  luto. Quando percebi o que tinha feito, fiquei desfeita, senti que tinha usado a morte do Tomé como uma arma de agressão, que me tinha escondido atrás do luto para me justificar. Irónicamente quando bati com a porta, um quadro com uma imagem do Tomé caiu da parede e partiu-se o vidro.... 

Colapsei, senti tanta vergonha. Descontrolei-me e chorei enquanto cortava as cenouras para o almoço - tenho uma capacidade estranha de continuar a fazer o que estou a fazer enquanto estou num caos inter. O meu filho mais velho estava comigo e senti-me uma mãe horrível por lhe ter pedido ajuda, por estar num caco à frente dele. No meio da confusão e da choradeira (onde ele se manteve firme e tranquilo pelo menos por fora) saíu-me pela boca a tal verdade "É tão difícil saber o que está certo e o que está errado, eu não sei, já não sei" Quase que me vi de fora a chorar e a dizer estas palavras, mas soube-me bem ser errada e descontrolada pelo menos um bocado, fazia-me falta. Não dá para ser conveniente o tempo todo. Às vezes é certo incomodar as pessoas, só me falta saber quando e quanto. 

Fui educada para não dar problemas, como tanta gente, para não entristecer os outros com a minha tristeza, nem os irritar com a minha raiva. Fui educada a que a culpa era sempre minha, mesmo quando apanhava uma gripe, porque devia ter ido mal agasalhada para a escola e agora ia dar trabalho. De tal forma que para pedir ao meu inquilino o respeito básico que qualquer ser humano merece, tive que me justificar com uma situação de excepção. E o engraçado é que só assim ele entendeu, saiu em meia hora e pediu-me desculpa. Funcionou, mas não valeu a pena. Senti muita culpa.

Demasiadas vezes as pessoas só acreditam na dor quando ela é tão óbvia que não pode mais ser ignorada, quando se grita, se arrancam os cabelos, quando se tem febre ou uma perna partida. Não basta dizer "doi-me", "preciso de ajuda" ou "não consigo", é preciso apresentar provas visiveis, sob o risco de ser chamado mariquinhas e mandado para o quarto. Por isso tantas vezes quando mais precisava de ajuda é quando me isolo, para não demonstrar "fraqueza", nem fazer os outros sofrer, para não ser castigada. É mais fácil quando deixo de confiar nos meus sentimentos e já não sei o que é certo ou errado, não fazer nada para não correr risco de errar. Dou por mim a fazer isso mais vezes do que gostaria.


segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Dia 15 - 22 de Agosto e compromissos

Há dois anos atrás


Assim que me comprometo com uma coisa, algo muda, e lá se vai o compromisso.
Era suposto ter escrito 20 textos até à data do aniversário ou o mais tardar da morte do Tomé e no entanto cheguei só até ao dia 14 e depois disso um silêncio de 22 dias exactos. E reparo agora que estamos a 22 de Agosto, um mês exacto depois do aniversário. Datas, números enfim. Podem significar tudo ou nada. Fico curiosa sobre em que dia e sobre quê será o texto 20.

Não me sinto culpada por aí além. Não sei porque foi assim, mas não me faria sentido escrever sem ser algo que viesse de dentro. E a verdade é que nestes dias não veio. Curiosamente tenho tido, por causa das férias imenso tempo para pensar e sentir o Tomé e a minha relação em transformação com ele. Tem havido mais angústia do que paz, mas está bem, este é um processo em que já aceitei que algumas coisas são escolha minha e outras não... é aceitar ou reprimir, mas elas brotam de alguma lado por si próprias.

Tenho saudade de fazer mais memórias como o Tomé, como aquela que foi feita há dois anos no Vale do Silêncio. Essa é uma das coisas essenciais para poder respirar, fazer memórias com o Tomé, na sua ausência/presença. Nestes dias senti necessidade de escutar mais do que de falar, de sentir mais do que exprimir. Foi bom assim, mesmo às vezes sendo dificil. Agora começa a formigar este desejo de voltar a escrever e voltar a fazer. Mas ainda muito mansinho. 

Tenho vontade de uma data para celebrar o Tomé, já sei que não pode ser nem nos anos, nem na data da morte porque são no verão. Terá que ser então outra altura. Vai surgir.
Hoje é o aniversário do filho de outro filho que morreu, não vou referir a mãe porque não lhe pedi licença, mas o filho é o Sérgio. Este filhos fazem-nos ir onde não iriamos se tivessem viajado para mais perto. 

Há dois anos tive um sonho, era mais complexo que isto mas no fim acabava comigo a gritar com o diabo para me devolver o Tomé. Um buraco grande no chão e eu a gritar com uma voz assustadora para ele, sem medo nenhum. Para mim é um sonho simbólico, e deixou-me reconfortada, fez-me pensar que pelo Tomé ou por qualquer outro filho enfrentaria qualquer coisa, que não teria medo de nada. Lembrei-me disto agora. 

Claro que às vezes é mais fácil enfrentar os demónios externos que os internos... e esses são os que quero enfrentar agora. 

sábado, 30 de julho de 2016

Dia 14 - Ser ou não ser feliz


O puzzle que o Tomé e eu fizemos juntos na casa do Areeiro

Eu e o Tomé fizemos um puzzle imenso há uns anos, durante semanas não pudemos comer na mesa da sala, mas valeu totalmente a pena. No fim faltavam peças, decidimos emoldurar mesmo assim, adorei fazer o puzzle com ele, adoro este puzzle com peças em falta, mais tarde encontrei as peças, mas não quis colocá-las no lugar, achava tão mais bonita a imagem incompleta. Está agora na parede do quarto que foi do Tomé. Estão quase a passar dois anos, parece um segundo e uma eternidade. As saudades não diminuem, aumentam. Algumas peças encaixam no puzzle, outras não faço ideia onde ou se vão encaixar alguma vez. 

Ontem estive com a Doriana, a mãe do Brian que morreu exatamente hà um mês - hoje foi o lançamento de balões em sua honra - foram precisos dois anos para me encontrar cara a cara com alguém que tem uma forma de viver o luto semelhante à minha. Que escolhe lembrar e continuar em relação. Que também tem sentido que falta abertura para isto. Foi muito bom. Até nos esquecemos de tirar fotografia, é bom sinal. Se a partir de três já não é loucura, já só nos falta um/a... 


Sei que posso continuar a sentir felicidade apesar da morte do Tomé, e paz, e alegria. A questão não é se é possível, é se vou ter coragem de o fazer apesar do medo.
Medo de quê? Medo de que uma mãe que consegue ser feliz e sentir-se viva depois da morte de um filho não seja boa mãe e consequentemente é óbvio que não pode ser boa pessoa. Tenho medo de não ser boa pessoa se for feliz. Conhecem a sensação? 

Podemos sentir isso por causa da morte de um filho, por causa da infelicidade dos nossos pais, da nossa família inteira ou parcial... dos nossos vizinhos. Em ultima análise pode parecer uma traição aos nossos amigos e até à humanidade ser feliz em tempos de tanta dor. Há anos um professor de constelações de que gosto imenso o Lorenz Wiest dizia-nos: "Achas que é difícil ser infeliz? Pensa melhor, ser infeliz é muito fácil, qualquer pessoa consegue ser infeliz, difícil é ser feliz, é isso que dá trabalho." Fez-me sentido.

Já li escrito por especialistas em luto que quanto maior o amor maior a dor... $%&#$%& A sério? Com essa lógica as pessoas que não ficam destroçadas são insensíveis e no fundo não gostavam das pessoas que morreram. O luto não é um concurso... 

Essa forma de pensar deixa quem sobrevive com vergonha de se sentir bem, porque isso parece ser uma prova de desamor. Por outro lado é-nos pedido para ficar bem rápidamente... embora claro se continue a afirmar que ficar bem é impossível. É fácil concluir que o que é socialmente aceite é ser estóico, continuar a funcionar e sofrer em silêncio. Nada mais poético do que uma pessoa que corajosamente apesar da dor leva a sua vida 'para a frente'. Sobreviver e sofrer em silêncio é permitido. Sofrer abertamente e ao mesmo tempo continuar vivo, nem tanto. 

Medo e coragem: medo de não me permitir ser feliz, medo de não ser boa mãe nem boa pessoa, vergonha de querer viver, e a coragem que nasce desse medo, de me questionar, de procurar, de perguntar e sobretudo de respirar e escutar os meus sentimentos, de partilhar a história de expor aquilo que envergonha para lhe tirar o poder.

Há algo de indomável nos sentimentos fortes, que assusta quem tem medo do seu lado bicho. Há uma loucura boa em seguir esses sentimentos, desconfio que eles podem levar-nos mais perto de uma verdade orgânica que cura. 

Apesar de o Tomé ter morrido eu continuo viva e o campo continua a cheirar bem e os risos das criança ali ao lado continuam a ser alegres. E no fundo o desafio desta blogue é esse mesmo, aprender a ser feliz com o Tomé, um processo intrincado :) mas vamos... 

Obrigada à Doriana por ser uma companheira de jornada.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Dia 13 - Coragem e outras coisas.


Sinto que estou a lutar, mesmo que não queira, luto porque tenho medo, não só por mim. uma amiga escreveu-me no outro dia: "a realidade assusta-me" e reconheço-me nisto. Repito para mim própria que mesmo com tudo o que vejo no mundo não vou desistir, repito para me convencer, porque me quero agarrar com unhas e dentes a qualquer réstia de esperança num futuro melhor que o presente. Com menos medos, menos ódios, mais alegria, abertura, sinceridade. 


Ás vezes apetece-me borrifar em tudo, pensar que não vale a pena, que o mundo nunca vai mudar, que a maioria são ovelhas e que preferem mil vezes ser escravas do que correr o risco de errar. Depois olho para as minhas sobrinhas, não porque são minhas, mas porque são felizes enquanto crianças, olho para elas e respiro muito fundo e sei que quero fazer o meu melhor e talvez um bocadinho mais para que elas tenham um futuro em que não tenham que ter medo da realidade. Assim como o Tomé dizia, o que o mundo precisa é de mais honestidade e bondade.



Isto pode parecer uma atitude corajosa e as pessoas apreciam a coragem. É das coisas que mais tenho lido nos comentários aos textos que tenho escrito, e sabe bem. Mas não é bem isso. A coragem vem à medida do medo, a coragem é um músculo que se treina (palavras da Brenée Brown), a coragem é maior em quem passou por mais medo, por isso talvez devêssemos começar a valoriza-la menos e a criar condições para que não seja tão necessária. 

Prefiro imaginar um mundo em que não seja necessária tanta coragem porque as pessoas se sentem apoiadas e podem assumir a sua vulnerabilidade. Muitas vezes tenho raiva da minha "coragem" porque ela significa que muitas e muitas vezes não era capaz mas tive que fazer. Uma situação que hoje em dia se calhar a maioria das pessoas conhecem, mas as mães de certeza e as mães solteiras se calhar mais do que qualquer outra pessoa. 

Sei o que me custou ser "corajosa" para além das minhas forças como um modo de vida e não acho que o orgulho seja a resposta certa. Sinto algum alívio, mas... a verdade é que a minha coragem falhou muitas vezes. Era para além das minhas forças. E... não devia ter tido que ter a tal coragem tantas vezes porque como mãe devia ter sentido segurança e apoio. Não desejo coragem para as outras mães e pais. desejo conforto, reconhecimento, justiça social. Desejo que só tenham que ser corajosos em circunstâncias muito raras, só para o músculo não se atrofiar e ainda assim com as costas quentes. 



Temos assistido a vários casos ultimamente de mães que se tentem suicidar com os filhos, é claro que os "treinadores de bancada" saltam logo para o julgamento e atiram a primeira e até a segunda e a terceira pedra, sem se perguntarem se já pecaram. Eu pergunto-me o quanto estas mães já tinham usado a sua coragem até se esgotar. Até soltarem o pequenino fio de coragem que as prendia à sanidade. 

Quando virem alguém que acham corajoso, podem evidentemente admirar e reconhecer essa coragem, desde que sabendo que também vocês a poderiam ter. Mas sobretudo estendam a mão, não aos estranhos corajosos, mas aos que estão ao vosso lado. Pensem neles assim como uma pessoa a carregar uma carga muito pesada e que não precisa que a fotografem para o face nem que lhe batam palmas, mas sim que lhe tirem alguma carga de cima. E mesmo nisso é preciso atenção em ver o que tiramos, tirar algo que não perturbe o equilíbrio do todo, não a primeira coisa que vem à mão, que pode ser aquilo onde o resto se sustenta.



Há uma expressão bonita "dare to care" Atrever-se a importar-se. Numa cultura que promove a indiferença e as ajudas bonitas e superficiais, importar-se com os outros é um atrevimento de que precisamos cada vez mais. Por cada pessoa que cultiva a indiferença, há outra que se importa e tem que se importar por duas, ou por três ou por quatro. Como o Tomé e como tantas outras pessoas que conheço e de quem gosto muito. 



De uma cultura de indiferença a uma cultura de cuidado pode ser só um passo, uma mudança da atitude, de perspectiva. A realidade de hoje é assustadora, e os ajudantes estão a fazer o seu trabalho mas não chega, todos fazem falta, todos podem fazer um bocadinho. E agarrar-se ao fio de esperança e de coragem, juntarem-se a outros e apoiarem-se reciprocamente neste caminho. 



"Se queres ir rápido vai sozinho, se queres ir longe vai bem acompanhado"

Provérbio Africano

Hoje vi este filme, animador. Há muita gente a trabalhar para um amanhã melhor.


quarta-feira, 27 de julho de 2016

Dia 12 - Parabéns ao Tomé (atrasados)


Nas semana passada foram os anos do Tomé, e um grande silêncio aqui no blogue. 
O silêncio não aconteceu porque me senti mais triste, pelo contrário, aconteceu porque estive mais envolvida na vida e mais tranquila, e porquê? Penso no Tomé todos os dias do ano, maioritariamente sozinha, assim como outras pessoas que o amam também pensam nele sozinhas, e nos anos dele juntamos-nos e pensamos nele juntas.... é muito melhor :) Por mim podiam ser os anos do Tomé todos os dias. 


Embora não seja católica, o meu imaginário é, tem-me vindo á cabeça uma frase de Cristo: "onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome eu estarei no meio deles". Numa interpretação livre, dei por mim a pensar que se calhar isto é verdade para todos os nossos mortos. Que se cada um de nós que os ama transporta em si um pouco deles, quando nos juntamos a presença é mais intensa. 



Por muito que não queria ter certezas num assunto destes,  a verdadeira razão porque consigo lidar com a morte do Tomé é porque nunca vi a sua morte como o fim da nossa relação, nem dos meus planos em comum com ele para o futuro. Nunca achei e ainda não acho que nunca mais ia poder comunicar com ele. 



O conceito de alma sempre fez parte da minha vida, de formas mais ou menos vagas. Nunca  precisei de ter uma certeza a este respeito até agora. Tenho noção desde pequenina que há coisas que o nosso cérebro não alcança, como infinito e eterno. Em criança tentei imensas vezes visualizar estas duas ideias sem nenhum sucesso. Mas aquilo que não consegui mentalmente, foi muito mais fácil a nível sensorial, em alguns momentos consigo sentir eterno e infinito, desde que não o tente fazer com o meu cérebro. Acho que é assim também com a alma. Algo que não é palpável, mas é "sentível" quando paramos de pensar. Quando vemos com os olhos da alma também.


Ainda assim é muito difícil. No fundo o que me importa não é se o Tomé morreu ou não, nem ele não estar aqui. Ele podia não estar aqui por milhentas razões, o que me importa é não saber se ele está bem. Não ter a certeza toda. Não poder mandar um sms e ter uma resposta... Nos momentos em que custa mais, as lágrimas impedem que o coração seque.

Algumas tradições falam em vários saberes: o que sabemos que sabemos, o que sabemos que não sabemos, o que não sabemos que não sabemos e o que não sabemos que sabemos.  Gosto muito deste conceito das coisas que não sabemos que sabemos. E com isso vem esta realidade que me parece ser partilhada por todos, das coisas que não somos capazes de fazer, mas fazemos na mesma. Como dar à luz, ser mãe, o luto e morrer. Um conjunto que parece dispar mas se calhar não é.
Talvez seja esse o mistério que nos ajude a fazer coisas que teóricamente não conseguimos. Como atravessar crises monumentais e superar-se perante as adversidades.

E estas várias facetas que nos ensinaram que se excluem, mas que obviamente coexistem em nós  humanos... estar bem e mal. Ter coragem e não ter, acreditar na alma e sofrer com a morte. Estar completamente tranquila e totalmente ansiosa. As contradições normais da natureza  humana. E quem sabe da divina. Esta coisa de sermos muitos mundos dentro de um só. Um arco-iris de realidades feito pessoa.

E no fim disto como no principio, parabéns ao Tomé que está simultâneamente ausente e  presente. Que é amado em várias dimensões e que quando atravessa a minha realidade do momento o faz como uma brisa fresca e brincalhona e ainda assim séria e profunda. Não vou tentar agarrar-te, porque suspeito que me escaparias pelos dedos, vou apenas respirar-te, pressentir-te, cintilar contigo sempre que puder. 

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Dia 11 - Uma amiga que não conheço


De momento sinto-me demasiado vulnerável para escrever sobre o que quero escrever: mães solteiras, abortos e o que é ser e ter um filho homem quando se tem medo de homens...

Na falta de coragem aqui fica um poema que encontrei ontem e que é de uma amiga desconhecida :)
Uma amiga que só conheço ao longe, em videos e por escrito mas que ainda assim tem sido uma grande ajuda, a Brenée Brown. Ela também acredita como eu no poder de contar a história.

Aqui fica:

Manifesto dos Corajosos e Destroçados

Não existe maior ameaça para os críticos e cínicos e promotores do medo
Do que aqueles que estão dispostos a cair
Porque aprendem a levantar-se

Com joelhos esfolados e corações magoados:
Optamos por assumir as nossas histórias de luta,
Em vez de nos escondermos, acotovelarmos, fingirmos.

Quando negamos as nossas histórias eles definem-nos,
Quando fugimos da luta, nunca somos livres,
Pelo que nos voltamos para a verdade e olhamo-la nos olhos.

Não haveremos de ser personagens das nossas histórias,
Não seremos vilões, nem vítimas, nem sequer heróis,
Somos os autores das nossas vidas,
Escrevemos os nossos finais audaciosos.

Construímos amor a partir de desgosto,
Compaixão a partir de vergonha,
Bondade e partir de desilusão,
Coragem a partir do fracasso.

Expormos-nos é o nosso poder,
A história é o nosso caminho para casa,
A verdade é a nossa canção,
Somos os corajosos e destroçados,
Estamos a recuperar a força.



sexta-feira, 15 de julho de 2016

Dia 10 - Cansaço

Talvez seja o verão, talvez seja a aproximação do aniversário do Tomé, que por sua vez é próximo da sua morte, a verdade é que de cada vez que me sento para escrever, os olhos estão pesados, há um enorme cansaço. E tenho aceite isso. Eu tinha um plano: escrever 20 textos em 30 dias e esse plano não parece ir concretizar-se. E não faz mal. Os planos vão ter que se ajustar à realidade do meu cansaço. 

Hoje tive um encontro com dois pais que me trouxeram inquietações sobre a sua escola, o seu bairro, o seu filho. 

Falámos sobre as resistências à mudança, como os que tomam a iniciativa se colocam no meio da arena e correm o risco de serem devorados pelos leões, de como os mais prejudicados pelo sistema, são às vezes os seus maiores defensores e no essencial falámos sobre crianças e jovens, que são peões em jogos de poder dos adultos. Em escolas que têm os alunos "bons" e "maus" separados. Da diferença que faz de quem se é filho, e de como isso já é tão comum que quase não se nota.

Olhei para estes dois pais, que podem tirar o filho daquela escola se quiserem, mas que ainda assim se importam com os que lá ficam. Que se importam com os filhos que não são deles. E aqueceu-me o coração. 

Hoje disse a estes pais que só daqui a três semanas vou à escola deles, que vou de férias antes. Resisti à tentação de alterar tudo para fazer de bombeira amadora. E fiquei contente. Também a ajuda tem que ser sustentável e sustentada. É uma aprendizagem nova para mim e ainda muito titubeante de não me sentir compelida a dizer que sim a todos os pedidos de ajuda, menos aos meus. 

Sou eu quem está vulnerável agora. Não esperava que esta fase fosse tão forte mas está a ser. Não consigo fazer isto mas estou a fazer. Não há escapatória para as emoções. Têm-me dito que sou corajosa. Eu estou de acordo com a Brenee Brown em que a coragem é um músculo. que se treina Às vezes gostava de ter menos coragem. Ter coragem não é muito mais do que um sinal de uma vida difícil. 

Ás vezes é muito cansativo. Muitas vezes dá vontade de desistir. Mas não dá para desistir. Desistir tem consequências e essas consequências são nossa responsabilidade perante aqueles que não podem defender-se, perante os mais vulneráveis. Assim como cada pequena mudança é uma nossa alegria.

Há uns dias falava com uma mãe muito jovem sobre o significado de ser mãe sozinha. Olha para uma mãe sozinha e vais ver uma mulher corajosa, muitas gostavam de não ter o músculo da coragem tão bem treinado. Mas isto é um outra história, que fica para amanhã... ou depois... dependendo do cansaço. 

Há muita coisa realmente terrível a acontecer e que parece que as soluções chegam em câmara lenta, que essa lentidão significa para as crianças que estão a ser engolidas pelo sistema. Por outro lado há tanta coisa boa a acontecer, tantas pequeninas chamas que começar a iluminar. 

Hoje deixo aqui os nomes de alguns deles, se clicarem nos links vão poder saber mais sobre cada um. Deixo também o link para o projeto do meu coração, o Sê Aprendiz. 

Dêm uma olhadelas e guardem os links para os momentos de desalento, ajuda saber que não estamos sózinhos.

Vidas Ubuntu
"A minha história pode mudar a forma como vemos o mundo"

Sociedade do Bem
"A missão do projeto consiste em promover a empatia, o altruísmo e a positividade nas crianças e jovens através do exemplo."

Projeto Oxigénio
"Inspirar uma nova educação e organização"

Sê Aprendiz

"Honestidade e bondade é o que esta sociedade mais precisa"